28 de Junho – Dia Mundial do Orgulho LGBTQIA+
“Desde pequena havia algo confuso na minha cabeça e no meu corpo, que eu não conseguia entender”, Angélica Bruch, 32 anos

A educadora física Angélica Bruch, 32 anos, sempre brincou com meninos na infância, preferia ajudar o pai na lida do campo do que a mãe, na lida da casa. Na adolescência, nunca gostou de maquiagem e, na escola, se sentia desconfortável na fila das meninas. Nascida e criada em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, um daqueles lugares em que todo mundo sabe da vida de todo mundo, ela relata que desde muito cedo sentiu que era diferente e que as pessoas a olhavam de forma diferente. “Desde pequena havia algo confuso na minha cabeça e no meu corpo, que eu não conseguia entender”, conta.

Adolescente, se relacionava com meninos e meninas, e aos 16 se viu grávida. Expulsa de casa pelo pai, encontrou abrigo em uma família vizinha, que a acolheu por um tempo. Quando a filha tinha pouco mais de 1 ano, ela voltou para cuidar da mãe doente. E desde então passou a viver duas vidas: durante o dia cuidava da filha e da mãe, quando saía à noite gostava de namorar meninas. “O mais difícil é assumir para a família”, afirma.

Em 2013, ao entrar na militância política do PSOL, conheceu a professora Maira Farias, 57 anos, e decidiu assumir de vez a sua condição de lésbica. “Eu senti que não dava mais para viver escondida e resolvi abrir para todo mundo”. As duas estão juntas desde então e, na pandemia, foram morar na mesma casa. A filha de Angélica, hoje com 15 anos, mora com o casal. Os filhos e netos de Maira convivem naturalmente com elas e Angélica, filha única e agora órfã de pai e mãe, diz que foi acolhida com muito carinho pela família da companheira.

Histórias como a de Angélica são muito comuns ainda, infelizmente. São pessoas que nascem aprisionadas em um corpo com o qual não se identificam, mas muitas vezes são obrigadas a viver um teatro porque a sociedade não as aceita como elas são. “Atualmente, minha maior dificuldade é frequentar banheiros públicos, porque entro no banheiro feminino e todo mundo me olha”, relata.

Já Maira disse que nunca sofreu discriminação, pelo fato da aparência feminina, mas se sente muito incomodada com o preconceito que sua companheira enfrenta no dia a dia. “Os médicos do Posto de Saúde quando precisam pedir exame de HIV, em geral sempre perguntam para os pacientes. Para as pessoas LGBTQIA+ o pedido é automático”, conta.

Angélica relata que quando leva a filha para consultas médicas, sempre escuta algum comentário, seja de médicos ou de enfermeiras do posto, sugerindo que houve negligência da parte dela com a menina. “Como se eu, por ser como sou, não fosse capaz de cuidar da minha filha”.

Ambas militantes do Movimento LGBTQIA+, como a grande maioria da comunidade, garantem que o governo de Jair Bolsonaro trouxe um grande retrocesso nas políticas públicas voltadas para esse segmento da sociedade. “O trabalho que vinha sendo feito na área da saúde e da educação, por exemplo, visando uma mudança de comportamento, está parado. As leis, por si só, não são capazes de proteger as pessoas LGBTQIA+, é preciso trabalhar esse tema em campanhas, que possam abrir as cabeças das novas gerações”, sugere Maira.

Uma morte a cada 29 horas no Brasil

Embora a homofobia seja considerada crime desde 2019 – com pena de 1 a 3 anos de prisão, que pode chegar a 5 em casos mais graves – o Brasil é um dos países que mais mata gays e travestis. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia, entidade que elabora relatórios anuais sobre violência, 300 LGBTQIA+ sofreram morte violenta no Brasil em 2021, 8% a mais do que no ano anterior, sendo 276 homicídios (92%) e 24 suicídios (8%), o que significa uma morte a cada 29 horas.

O Nordeste foi a região onde mais LGBTQIA+ tiveram morte violenta (35%), seguida do Sudeste (33%), que pela primeira registrou uma grande concentração de óbitos, mais do que a soma total das demais regiões Sul, Norte e Centro-Oeste.

Ainda de acordo com o relatório do Grupo Gay da Bahia de 2021, os homossexuais masculinos continuam sendo os mais atingidos pela violência letal, com 51% das mortes, seguidos das travestis e transexuais (36,67%), lésbicas (4%), bissexuais e homens trans (1,33%), uma ocorrência de pessoa não binária e um heterossexual, este último confundido com um gay. Nas últimas quatro décadas, apenas em 2020, pela primeira e única vez a morte violenta de transgêneros ultrapassou a dos gays.

“Esses dados se baseiam em notícias publicadas nos meios de comunicação sendo coletados e analisados pelo Grupo Gay da Bahia, que há 40 anos divulga essas tristes estatísticas, cobrando do governo políticas públicas que erradiquem essa mortandade que vai muito além desses números, pois representam apenas a ponta de um iceberg de ódio e sangue”, diz o Relatório.

Segundo o professor Domingos Oliveira, responsável pela coleta e sistematização dos dados, “o descaso da polícia e o desleixo dos jornalistas em registrar com precisão as informações básicas indispensáveis para identificação dos LGBT assassinados, é um aspecto da homotransfobia cultural que macula nossa sociedade, além de dificultar uma análise mais profunda e completa dessas mortes violentas”.

O levantamento sobre violência confronta uma pesquisa lançada pela Data Folha no dia 4 de junho e 2022, na qual 8, em cada 10 entrevistados, disseram que a homossexualidade deve ser aceita. O índice de aceitação cresceu 12 pontos percentuais em quase 9 anos e é maior entre jovens, mulheres, espíritas e pessoas com ensino superior.

É de se questionar porque a maioria aceita a condição dos LGBTQIA+, no entanto esse segmento da sociedade é tão perseguido, muitas vezes até a morte. “Esse pequeno número de pessoas que não nos aceita é muito violento e disseminador do ódio, por isso há tantas mortes”, analisa a professora Maira Farias.

Em tempos de crise, sofre mais quem sofre sempre

A pandemia da Covid-19, que se arrasta desde o final de 2019, aprofundou a desigualdade social em todo o mundo e atingiu em cheio a população LGBTQIA+. “Se uma empresa precisa demitir, o primeiro alvo são essas pessoas”, observa Angélica Bruch. Segundo relatório “Diagnóstico LGBT+ na pandemia”, feito pelo coletivo VOTE LGBT+ em parceria com a consultoria Box1824 , 6 em cada 10 LGBTQIA+, perderam emprego e renda durante a pandemia.

Djeniffer Rodrigues Coradini, psicóloga, servidora pública da Secretaria Estadual da Saúde do RS, e dirigente do Sindsepe/RS, afirma que em momentos de crise, sofre mais quem sofre sempre. “Não é por acaso que os que mais morrem de Covid são os que mais morrem de tiro e de fome”, observa. Segundo ela a insegurança alimentar, a impossibilidade de manter seu trabalho e renda, bem como dificuldade de acesso aos serviços de saúde básicos e especializados, tornaram a população LGBTQIA+ mais vulnerável durante a pandemia.

Devido à situação de exclusão social, preconceito e genocídio da população LGBTQIA+, é indispensável que a saúde pública, direito de cidadãs e cidadãos brasileiros e dever do estado, seja um processo acolhedor e humanizador. Segundo Djeniffer, em razão do contexto sócio-político em que estamos inseridos (as), as políticas de saúde voltadas para a comunidade LGBTQIA+ são muitas vezes consideradas ideológicas, saindo do campo dos direitos e transitando em questões morais, o que acaba virando uma “opção” para as equipes de saúde abordarem ou não esses temas. “Mas esses temas são as pessoas, trata-se da vida das pessoas, e isso não é opcional porque o SUS é direito de todas e de todos, e o princípio da equidade, base do SUS, nos orienta a ofertar mais a quem mais precisa”, conclui.

Todos estes elementos nos levam a refletir que muito ainda precisa ser feito e muitos avanços sociais precisam ser conquistados para a população LGBTQIA+. O Hospital de Clínicas de Porto Alegre é o único que oferece os atendimentos ambulatoriais para homens e mulheres trans e travestis em todo o estado e um dos únicos no País. A meta é que qualquer membro da comunidade LGBTQIA+ possa visitar qualquer unidade de saúde, no posto do seu bairro, e seja atendido pela sua demanda, seja ela qual for. “Um corpo LGBT é um corpo sexualizado o tempo todo, e não é incomum as pessoas chegarem ao serviço de saúde com uma dor de cabeça e saírem com encaminhamento para um teste anti-HIV”, diz a psicóloga.

Por que o 28 de junho?

No Brasil e no mundo, o mês de Junho é marcado por uma série de atos, manifestações e reivindicações a favor dos direitos da comunidade LBTQIA+. O mês foi escolhido propositalmente devido ao Junho de 1969, em Nova York, quando milhares de pessoas marcharam a favor dos direitos de gays, lésbicas e travestis, após a invasão do bar Stonewall, bar gay e recreativo em Manhattan, por policiais armados até os dentes no dia 28 daquele mês. Homossexuais estadunidenses dos anos 50 e 60 enfrentavam não apenas uma sociedade homofóbica, como um sistema educacional, policialesco, e jurídico anti-homossexual.

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