Dezembro Vermelho: servidoras e servidores tornaram os Centros de Testagens e Aconselhamentos (CTA’s) do RS referência no país;

Dezembro Vermelho 

Assim como o Outubro Rosa sobre o câncer de mama e o Novembro Azul sobre o câncer de próstata, o Dezembro Vermelho foi escolhido pela Assembleia Mundial de Saúde, em outubro de 1987, com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), para ser o mês de reforço sobre as medidas de prevenção, assistência, e proteção das pessoas infectadas pelo vírus HIV/AIDS ao redor do globo.  

O dia 1º de dezembro foi registrado como a data simbólica da luta internacional contra a doença. No Rio Grande do Sul, há duas instituições de saúde que já chegaram a atingir o patamar de centros de referência no que se refere aos cuidados que perpassam desde a testagem e prevenção até o acolhimento e tratamento dos pacientes com HIV: o Ambulatório de Dermatologia Sanitária (ADS), que abriga o 1° Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de AIDS do Brasil há mais de 31 anos, e o Hospital Sanatório Partenon (HSP), que completará 70 anos de existência em janeiro de 2021. 

Serviço de Atenção Terapêutica  

No ano de 1999, surgiu também o Serviço de Atenção Terapêutica (SAT) no Hospital Sanatório Partenon, como parte de um processo de ampliação da estratégia exitosa realizada pelo próprio ADS, para a execução do atendimento integral também aos pacientes com HIV/AIDS. A farmácia do SAT chega a realizar cerca de 2.500 dispensações de medicações para tratamento e prevenção de HIV por mês, de acordo com dados de 2019.  

Em abril do ano passado, o Sanatório contou com a inauguração de um novo espaço da Unidade Dispensadora de Medicamentos Antirretrovirais – UDM, que também realiza um vital acompanhamento visando o controle da epidemia nos padrões acordados com o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS – UNAIDS. 

Campanhas de divulgação e sensibilização 

Todos os anos, por ocasião desta data, os centros realizam campanhas de divulgação, sensibilização para o teste e de combate à epidemia de AIDS, ampliando também o horário para a realização da testagem rápida. Esta atividade mobiliza o conjunto dos servidores e as coordenações que ampliam o seu atendimento. Entretanto, devido à pandemia da Covid-19, os CTA’s tiveram que adotar algumas estratégias para atenderem a população sem gerar aglomerações. De acordo com a psicóloga do CTA do Hospital Sanatório Partenon, Silvia Perivolaris, uma sala para realização e distribuição de auto testes foi criada. “Continuamos fazendo testagem, mas com um fluxo menor para evitar aglomerações. Distribuímos auto testes e ensinamos como realizá-los. Também continuamos realizando a profilaxia pré e pós exposição (PrEP e PEP), mas poderíamos estar ampliando muito mais o nosso trabalho, se não fosse a falta de equipe e a pandemia”, afirma.

A psicóloga e mestra em Sociologia, Nalu Both, que já atuou no Centro de Testagem e Aconselhamento do ADS e agora também integra o quadro do CTA do Hospital Sanatório Partenon, registra como é o trabalho realizado pelas equipes de abordagem, diagnóstico e inserção (ou reinserção) dos pacientes neste sistema. Segundo ela, o foco destes centros é o trabalho através de equipes multiprofissionais devidamente capacitadas e que servem de referência para questões relacionadas à prevenção, diagnóstico e tratamento não só do HIV, mas também de sífilis, hepatites virais B e C e outras infecções sexualmente transmissíveis.  

“A gente recebe a pessoa e tem o cuidado de não julgar em nenhum momento, já que elas nos falam da sua vida íntima, da sua vida sexual. O nosso papel ali é baseado no vínculo, na escuta, no apoio psicológico, na prevenção, na informação, e basicamente na avaliação de riscos e vulnerabilidades”, afirma. Segundo ela, as equipes estão muito preparadas também para atender a população mais vulnerável para o vírus do HIV: homens que fazem sexo com homens, travestis e transsexuais, usuários de drogas e profissionais do sexo. Assim como outros atravessamentos envolvendo faixa etária e etnia como jovens e pessoas não-brancas.  

Tratamento e prevenção avançaram muito 

De acordo com a servidora, muita coisa evoluiu no que se refere ao tratamento e prevenção do HIV/AIDS desde que se detectou os primeiros casos da doença no Brasil. No início, os CTAs tratavam com os pacientes portadores do vírus em forma de anonimato: eles não apresentavam nome ou RG, eram identificados apenas por senhas. Este procedimento acontecia para salvaguardá-los do estigma e da discriminação que se abatiam sob as pessoas portadoras do vírus naquela época.  

Atualmente, ainda há opção de teste anônimo, mas é mais raro, sendo que a maioria já se acostumou e se identifica através do seu nome e documentos oficiais no momento dos testes e acompanhamentos. “Muitas coisas evoluíram, quando eu comecei trabalhar com HIV há mais de 20 anos, a gente não tinha tratamento, não tinha muito para oferecer além do conforto. Hoje os tratamentos para HIV são muito bons, as pessoas vivem muito bem”, afirmou Nalu. De acordo com psicóloga ainda, durante o tratamento, a carga viral de algumas pessoas pode até ser zerada, o que não significa cura, mas a possibilidade da não transmissão do vírus para terceiros. 

Silvia também especifica que as etapas de aconselhamento não se limitam apenas a questões envolvendo o HIV/AIDS, mas também sobre demandas de outras ordens, como por exemplo, o desconhecimento por parte dos pacientes sobre as suas Unidades Básicas de Saúde (UBS), local nunca frequentado por eles.  

O CTA então realiza o direcionamento e até mesmo o cadastro do cartão SUS destes pacientes, assim como nova identidade social quando necessária. “É um trabalho que ultrapassa as etapas de prevenção, estímulo ao diagnóstico e tratamento da AIDS, nós também temos uma preocupação com relação à cidadania e pensamos o sujeito como portador de direitos em relação à sua saúde de uma forma mais ampla”, declara.  

Ainda de acordo com a servidora, essa construção cidadã é feita em conjunto com o usuário e conforme as demandas anunciadas por ele. O papel da equipe é trazer as questões que ficaram latentes para a discussão. É importante perceber as vulnerabilidades dos pacientes para que as equipes possam ajudá-los. “Mapeamos, por exemplo, os programas, as ações, as políticas de saúde que estão disponíveis para determinada população, ou a falta delas, e como isso impacta os diferentes segmentos populacionais”, concluiu.  

Foto: Reprodução/Testagem HIV

Investimentos e o papel essencial do serviço público

Quando o assunto se dirige às equipes e aos investimentos, as psicólogas afirmam que os profissionais médicos e enfermeiros, demandados pelos CTAs estão em falta. “Hoje é fundamental que uma equipe do CTA tenha médicos e isso está sendo negligenciado. Não conseguimos equipes completas e vamos trabalhando na precariedade muitas vezes, sem perder a qualidade, mas poderíamos estar fazendo muito mais, caso a Secretaria da Saúde (SES-RS) não se negasse em oferecer as condições ideais para que a gente tivesse uma equipe completa”, afirma Silvia.  

A psicóloga Nalu vai na mesma direção e diz que a impressão é de um eterno recomeçar. “Isso é muito triste, a gente qualifica algumas equipes que servem ao estado e aos municípios, e daqui a pouco a gente vê isso se desmanchar, todo um know-how ir embora. Se não fossem os servidores públicos que permanecem sustentando tais procedimentos, seria ainda pior”, ressalta. A servidora ainda lembrou dos colegas trabalhadores e trabalhadoras do quadro da saúde do nível municipal que começaram a ser demitidos nesta semana: “hoje foi mais um dia da gente acompanhar a demissão de vários colegas do IMESF. A gente que é funcionário público há muitos anos, eu tenho vinte cinco anos de estado, a gente vê um desmonte enorme das estruturas do SUS. Isto é muito custoso, isso é muito triste”, revela.

As psicólogas afirmaram ainda que acabam por enxergar os profissionais se exonerando ou se aposentando pelos mais variados motivos, más condições de trabalho, má remuneração, falta de perspectiva na carreira e ambientes insalubres, sem que ocorra contratação de um novo quadro para substituí-los(as). “A gente só vê os profissionais saindo e não temos a contratação de ninguém”, diz Silvia. Apesar disto, quando questionadas sobre o papel essencial que o serviço público desempenha neste processo, e apesar das dificuldades, elas não hesitaram em destacar a qualificação das equipes multidisciplinares que contam até com nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais. Segundo elas, se houvesse mais investimentos, o serviço poderia ser potencializado.  

Assessoria de Comunicação – SINDSEPE/RS

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