Domitila Chungara, líder operária, formadora política e opositora de regimes autoritárias

Domitila Chungara, nasceu e cresceu no meio de uma cultura profundamente machista, na qual a compreensão era de que lugar de mulher é em casa e que mulher não precisa aprender a ler e escrever, pois isto serve apenas para mandarem carta para os namorados. Mas teve sorte, pois seu pai, um camponês que depois se tornou mineiro, lhe dizia que “as mulheres podem fazer as mesmas coisas que os homens”.
Até o ano de 1961, não havia organização de mulheres nas minas e, na maioria dos casos, os homens não deixavam que elas participassem das reuniões. Foi com Domitila, na Mina Siglo XX (Século 20), que as mulheres começaram a conquistar seu espaço até formarem o Comitê de Donas de Casa, mulheres de mineiros, órgão de apoio à luta dos trabalhadores, ligado ao sindicato e à Central Operária Boliviana (COB).
No ano de 1967 (o mesmo em que Che Guevara foi executado no solo boliviano), o então ditador René Barrientos ordenou que o Exército interviesse nas minas em greve. O massacre aconteceu nas comunidades de Catavi e Lalagua, com o assassinato de dezenas de operários.
Grávida, Domitila foi presa e torturada, tendo perdido o filho.
Em 1975, representou os trabalhadores da Bolívia na Conferência Mundial das Mulheres, realizada no México, dentro da programação da ONU no Ano internacional da Mulher.  Domitila não gostou muito do evento: “… Diziam que era um evento que ia representar camponesas, donas de casa, mulheres trabalhadores e pobres. Não foi assim. As mulheres presentes eram quase todas de formação acadêmica e completamente diferentes de nós, bolivianas, mineiras e donas de casa.  Cumpri a tarefa de denunciar o que acontecia nas minas (o salário baixo, a superexploração), mas os organizadores e participantes da Conferência não estavam interessados em nossos problemas sociais”.
Entretanto, foi essa conferência que proporcionou ao mundo o conhecimento da situação dos mineiros da Bolívia e transformou Domitila em sua referência. Não pela conferência, em si. É que Moema Viezer, uma educadora brasileira, se interessou pelo tema e por aquela brava mulher. Realizou uma série de entrevistas e publicou o livro “Se me deixam falar – Testemunho de Domitila, uma mulher das minas da Bolívia”, que foi traduzido em 14 idiomas e vendeu milhares de exemplares. Domitila passou a ser convidada para palestras em diversos países em continentes.
Domitila, morta em 2012 de câncer de pulmão, doença que atinge fortemente os trabalhadores e trabalhadoras mineiras, foi uma importante liderança operária que afirmava “sem as mulheres, a revolução fica pela metade”. Atuou ainda como formadora política e utilizava a história do Rei Midas para explicar ao povo nas suas palestras, nos seus discursos e na sua Escola de Formação Política, o que é o capitalismo e a necessidade da revolução popular em vista da construção do socialismo. Simples, didática, envolvente, símbolo das lutas dos mineiros, dos trabalhadores, das mulheres bolivianas; na verdade, ícone do povo da América Latina.

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