Estados mais desiguais têm maior taxa de adoecimento e morte por covid-19, diz estudo

Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) mostra impacto da desigualdade social no combate à pandemia

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) relaciona os índices de desigualdade econômica ao aumento no risco de adoecimento e morte pela covid-19. Conforme a pesquisa, publicada em forma de artigo na Revista Brasileira de Epidemiologia, as taxas de incidência e mortalidade pela doença foram crescentes em todos os estados brasileiros, tendo sido mais acentuadas nas regiões com maior desigualdade.

O professor Lauro Demenech, do Centro de Estudos sobre Risco e Saúde (Ceris), vinculado ao curso de Psicologia, explica o processo de pesquisa. Primeiramente, foram acessados os números sobre infecções e óbitos por covid-19 dos dados oficiais brasileiros. “A partir disso, acompanhamos por 12 semanas as evoluções desses dados, calculando as taxas de incidências (risco de adoecer) e taxas de mortalidade (risco de morrer) para cada estado brasileiro”, diz ele.

Paralelamente, os pesquisadores coletaram informações sobre o grau de desigualdade econômica de cada estado, disponibilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por fim, compararam essas taxas para observar se havia diferença no risco de infecção e morte pelo vírus em função do tamanho da desigualdade econômica do estado onde a pessoa vive.

“Em estados com maior desigualdade econômica, as taxas de infecção e morte por covid-19 foram maiores em todas as 12 datas incluídas, uma associação que se tornou cada vez mais forte com o tempo. Além disso, e o mais surpreendente, pudemos identificar que, apesar de haver agravamento da pandemia em todos os estados brasileiros no período avaliado, essa evolução foi mais acentuada/acelerada exatamente nesses estados mais desiguais”, ressalta o pesquisador.

Os efeitos foram observados através de modelagens estatísticas temporais e espaciais, e se mantiveram mesmo quando levados em consideração aspectos como a densidade demográfica de um estado. O Rio Grande do Sul, por exemplo, é um dos estados brasileiros com menor desigualdade econômica, e, durante o período avaliado, apresentou alguns dos melhores índices no manejo da pandemia.

É importante destacar que o artigo indica que todas as pessoas que vivem em regiões mais desiguais estão sob maior risco de infecção e morte pela covid-19. “Apesar de outros estudos já terem identificado que pessoas em maior desvantagem socioeconômica têm maior risco de adoecer e morrer pelo novo coronavírus, o que argumentamos no artigo é que a desigualdade econômica exerce um efeito como se fosse a poluição do ar. Todos pagam uma ‘taxa de saúde’ por viver em uma sociedade poluída, assim como todos pagam uma ‘taxa’ por viver em uma sociedade desigual. É possível que em estados mais desiguais, piores sejam as capacidades, especialmente dos órgãos públicos de reagir adequadamente a uma crise do tamanho dessa pandemia. Isso faz com que todos os seus cidadãos paguem por isso – apesar de o impacto ser maior entre os mais vulneráveis”, declara o pesquisador.

Além do professor Demenech, outros dois pesquisadores da universidade participaram do estudo: os professores Lucas Neiva-Silva, também do Ceris, e Samuel C. Dumith, do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina (Famed).

Outras pesquisas relativas ao novo coronavírus são desenvolvidas pela equipe da FURG. A principal delas é a Mental Covid, cujo objetivo é medir o impacto da pandemia da covid-19 na saúde mental da população, através de cinco subestudos. O professor Lauro Demenech é o coordenador geral de um desses subestudos, a pesquisa multicêntrica “Saúde e Bem-Estar na Graduação”, em âmbito nacional, envolvendo outras quatro universidades (Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal do Mato Grosso, Universidade do Estado do Amazonas e Universidade Federal Rural de Pernambuco) sobre a saúde mental de estudantes de graduação no Brasil. Os pesquisadores ainda estão em período de coleta de dados, e a expectativa é divulgar os resultados no primeiro semestre de 2021.

* Com informações da FURG

Edição: Marcelo Ferreira

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