Marcha contra a Fome, a Miséria e o Desemprego será realizada em Porto Alegre neste sábado, 9 de julho

Centrais sindicais e movimentos sociais vão às ruas para exigir do governo respeito e vida digna à população brasileira

Mais da metade da população brasileira convive com insegurança alimentar em 2022 e 33,1 milhões não têm o que comer, revela pesquisa conduzida pela Rede PENSSAN. O contingente de pessoas com renda de até R$ 497 mensais atingiu 62,9 milhões em 2021, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Além disso, mais de 10 milhões de brasileiros estão desempregados, apontam dados do IBGE.

Frente a essa grave situação, centrais sindicais e movimentos sociais promovem, neste sábado (9), em Porto Alegre, a Marcha Contra a Fome, a Miséria e o Desemprego. O início da marcha está marcado para as 13h30, com concentração no Largo Glênio Peres, no Centro Histórico, com saída da caminhada prevista para as 14h30.

2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, lançado neste ano, apresentou a situação da insegurança alimentar no país, que atinge 58,7% da população, tendo retornado ao patamar da década de 1990. A pesquisa revela que a fome dobrou em lares onde têm crianças de 0 a 10 anos, e é mais severa nos lares chefiados por mulheres. O estudo também destaca a situação da fome na agricultura familiar. As formas mais severas estavam presentes em cerca de 38% dos domicílios de agricultores familiares.

Um dos fatores destacado no inquérito que contribui para o alto índice de insegurança alimentar está ligado ao desemprego. O país registrou, no trimestre que encerrou em maio, 10,6 milhões de desempregados, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do IBGE.

Mesmo na região Sul do país, a menos afetada, os sinais do quadro da fome preocupam, com quase metade da população vivendo com algum grau de insegurança alimentar. É o que destaca Juliano de Sá, presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do RS (Consea/RS), uma das entidades que se somam à manifestação de sábado.

“Nesses 48,2% das casas no estado falta comida, ou as pessoas estão se alimentando de forma insuficiente ou não têm certeza da próxima refeição. Nesse cenário nós temos as pessoas que não têm nada para comer e as pessoas que não estão se alimentando em quantidade suficiente, que já são mais de 21% da população gaúcha”, afirma.

O presidente estadual da Central Única dos Trabalhadores (CUT-RS), Amarildo Cenci, destaca a contradição do país ter milhões de pessoas passando fome enquanto é um grande produtor de alimentos. “É inaceitável que toda essa gente se encontre passando imensas dificuldades, sobrevivendo com insegurança alimentar, enquanto o Brasil produz toneladas de alimentos para exportação”, critica.

“Temos que tomar as ruas para bater as panelas vazias e utilizar as redes sociais para protestar contra a fome, a miséria e o desemprego. O povo brasileiro precisa levantar a sua voz para exigir respeito e vida digna”, defende Cenci.

Para o presidente estadual da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB-RS), Guiomar Vidor, a manifestação de sábado representa o início de uma grande marcha contra a atual política de exclusão social promovida pelo governo Bolsonaro. “Os trabalhadores e o povo em geral não aguentam mais o arrocho salarial e o preço dos alimentos lá nas alturas”, afirma.

Ao destacar os milhões de brasileiros e brasileiras passando fome e desempregados, Guiomar reforça o convite à participação no ato. “Só a nossa união e mobilização pode barrar tudo isso. Vamos começar esta caminhada neste sábado, dia 9, a partir das 14h no Largo Glênio Peres.”

Além da fome, a pobreza e a carestia

Somado ao mapa da fome, também está o da pobreza. Pesquisa recente da FGV, intitulada Mapa da Nova Pobreza, destaca que o contingente de 62,9 milhões de pessoas com renda domiciliar per capita de até R$ 497 representa 29,6% da população total do país. De acordo com o levantamento, este número, em 2021, corresponde a 9,6 milhões pessoas a mais que o registrado em 2019 – quase a população de Portugal de novos pobres surgidos ao longo da pandemia.

Com isso, vem a dificuldade de adquirir alimentos, visto a inflação que eleva mês a mês os preços dos alimentos nas prateleiras dos supermercados do país. Segundo levantamento mensal do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a cesta básica subiu mais de 13%, chegando a 26,54% nos últimos 12 meses nas 17 capitais onde o a pesquisa é realizada.

“Está tudo muito caro. O povo não aguenta mais. Os preços dos alimentos dispararam, assim como os preços da gasolina, do diesel, do gás de cozinha e da energia elétrica. Não é à toa que aumentou o número de pessoas pedindo comida nas cidades e morando em situação de rua”, afirma o presidente da CUT-RS.

Para o presidente do Consea/RS, a situação é resultado do desmonte de políticas públicas iniciado em 2016, com a PEC do teto dos gastos, e com o desmonte de várias políticas públicas, entre elas o fim do Programa de Distribuição de Alimentos (PAA), o fim do Bolsa Família e a má gestão de outros programas, como o Programa Nacional da Alimentação Escolar (PNAE). No caso do RS, destaca que além do desmonte das políticas públicas, também pesou a estiagem.

“A má gestão do PNAE está ignorando as compras da agricultura familiar. O governo estadual fechou o ano de 2021 com mais de R$ 26 milhões em caixa, que poderiam ser utilizados para compras de kits de alimentação de agriculturas familiares para levar comida para mais de 250 mil famílias de estudantes”, enfatiza Juliano.

Cozinhas comunitárias se somam à marcha

Voluntários de cozinhas comunitárias que atuam para minimizar o problema da fome nas periferias de Porto Alegre também estão mobilizados para a manifestação deste sábado. Líder comunitária do Cristal, na Cruzeiro, Natiele Araújo da Silva ressalta que a realização do ato é por conta da dificuldade ao extremo.

“Nós, enquanto cidadãos, não era para estarmos fazendo manifesto contra a fome, era pra estar reivindicando outras coisas ou melhorias para os cidadãos. As cozinhas fazem a sua parte dentro das comunidades, contribuindo com a distribuição das refeições do dia, pois muitos não têm gás para fazer sua própria comida, o próprio alimento básico como arroz e feijão ou até mesmo moradia”, relata.

Segundo ela, o protesto é um grito de socorro aos governos, que não atuam para amenizar a fome do povo brasileiro. “Nos escutem, ninguém sai da sua casa, da sua zona de conforto, para bater panela sem motivo. Combater a fome vai ser difícil, mas não impossível, é um trabalho árduo, mas a esperança está chegando, enquanto ela não chega é nós por nós.”

O cozinheiro Pedro Rubem Nascimento, conhecido como Pedrão, da cozinha comunitária que atende a região da Lomba do Pinheiro, reforça a importância da Marcha Contra a Fome, a Miséria e o Desemprego. “É de suma importância as manifestações em todo o território nacional contra a fome e a miséria em que nosso país mergulhou nos últimos anos. Podem dizer que é por conta da pandemia, da guerra da Rússia e Ucrânia, mas digo que essa bancarrota começou antes”, analisa.

Ao ser questionado sobre a realidade da população atendida pela sua cozinha, diz que “é gritante a calamidade que o povo vive”. Segundo ele, hoje ajudar as pessoas mais necessitadas “é um ato cotidiano, onde antes era esporádico, agora é sistemático”. E finaliza: “É na luta cotidiana e no reforço junto a manifestações que engrossamos o coro por dias melhores.”

Foto: Maiara Rauber

Texto: Marcelo Ferreira e Fabiana Reinholz

Fonte: Brasil de Fato

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