“No momento mais crítico da pandemia o país não fez distanciamento social rígido”

A afirmação é do reitor da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) e coordenador da pesquisa Epicovid19, Pedro Hallal

via Brasil de Fato – RS

“É como se estivesse caindo quatro aviões por dia, todos os dias no país”, compara o doutor em epidemiologia Pedro Hallal, ao falar das mais de mil mortes registradas diariamente no Brasil em decorrência do novo coronavírus. Perdas que no final de semana chegaram à trágica marca de 100 mil vítimas. Coordenando a maior pesquisa do mundo sobre a pandemia, a Epicovid19-BR, o reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPPel), em live do Brasil de Fato RS e da Rede Soberania, comenta o quadro atual no país. Conforme ressalta, o país é o maior exemplo do mundo de falta de vontade política para combater o coronavírus atualmente. 

Pedro Hallal começou falando sobre a retomada do Estudo de Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19 no Brasil (Epicovid19-BR), que em julho teve o financiamento suspenso pelo Ministério da Saúde. Também comentou sobre a pesquisa realizada no estado, o estudo de Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19 no Rio Grande do Sul (Epicovid19-RS), que neste final de semana vai sua sétima fase.

“A pesquisa gaúcha talvez seja a mais detalhada que nós temos em qualquer lugar do mundo sobre o coronavírus, porque ela começou lá em abril, quando quase não tinha vírus circulando e agora estamos em agosto em um momento que o Rio Grande do Sul está sendo atingido forte pela pandemia”, expõe.

Distanciamento controlado está fragilizado

Segundo defende Hallal, o modelo de distanciamento controlado adotado no estado tem pontos positivos, por ser gradativo. “A estrutura das bandeiras indicaria um cenário de maior ou menor gravidade. O modelo também tem a capacidade de se adaptar de tempos em tempos. Ele usa vários indicadores, sendo um desses o resultado da nossa própria pesquisa, que é para saber a porcentagem da população tem infectada”, explica. 

Contudo, como observa, o modelo foi se desgastando com o passar do tempo, foi “se politizando, no mal sentido”. De acordo com ele, o desgaste iniciou com o pedido de recursos feito pelas prefeituras e associações. “Se a cidade não gostar do resultado do algoritmo, a cidade recorre, e aí começou a banalizar o o modelo. Hoje o modelo está realmente muito fragilizado, eu sequer vejo grande motivo para mantê-lo do jeito como está, ele não tem conseguido cumprir o seu papel”, salienta. 

O reitor chama atenção também para a intenção do retorno das aulas no estado. “Se a gente vai pensar em reabrir escola nesse momento em que a pandemia está bombando no RS, aí realmente é muito difícil, aí realmente o modelo não está servindo para nada”, destaca.

Sentimento de vida que segue 

Ao ser indagado sobre o sentimento de normalidade e de que o pior já passou, Hallal diz ser o ponto mais delicado. “Na prática a gente se acostumou a ver que morrem mil pessoas todos os dias com essa doença. Há uma analogia feita que dá bem a ideia da gravidade que estamos vivendo, está caindo quatro aviões por dia no Brasil, todos os dias no país. As pessoas começaram a se acostumar com isso, a achar natural, e não é natural”, ressalta.  

Ao comentar sobre a curva epidemiológica, o coordenador explica que no Brasil ela subiu, estabilizou e não começou a descer. Diferente do que acontece em outros países, onde ela sobe e, ao chegar no topo, desce. Hallal salienta que esse teto horizontal significa o fracasso das políticas de saúde de combate ao vírus. De acordo com ele, nos outros países a curva subiu e depois desceu, como seria esperado, porque na hora mais crítica os países estavam fazendo distanciamento social rígido. “O Brasil, infelizmente, no momento mais crítico da pandemia, em qualquer lugar do país, não fez e não está fazendo distanciamento social rígido”, reforça.

Dicotomia entre economia e saúde pública 

De acordo com Hallal, há um entendimento equivocado na relação de economia e saúde pública. “As pessoas acreditaram nessa disputa entre economia e saúde pública que na verdade é uma disputa que não existe, que nunca existiu”, afirma, trazendo como exemplo os casos das cidades de Madrid, na Espanha, e Paris na França, que tiveram um lockdown rigoroso. 

“As cidades ficaram com cara de cidade fantasma por 45 dias, 60 dias. Agora voltou em uma intensidade melhor, e a economia está reaquecendo. No Brasil, desde o meio de março estamos nessa situação. Estamos há cinco meses enfrentando a pandemia. Se tivéssemos fechado mais rigorosamente, em dois meses tínhamos conseguido reabrir os setores com mais pujança econômica. Não adianta estar abrindo loja agora se ninguém está indo, obviamente as pessoas estão preocupadas, e com toda razão, com medo, e que bom que elas tenham medo”, pondera. E ressalta que quanto mais restritivos formos, melhor, porque morre menos gente e se recupera a economia mais rápido. “O Brasil acreditou na dicotomia economia e saúde pública. O Brasil acreditou que ou salva a economia, ou salva a vida, e está errado. A mesma estratégia que salva a vida salva a economia”.

Falta de testagem em larga escala 

Conforme explica Hallal, a testagem em larga escala é feita para identificar cedo os casos, isolar as pessoas, e fazer uma busca ativa. Em cada caso positivo, pega-se uma lista de pessoas com que o positivado teve contato e se testam essas pessoas. “A gente começa a identificar cedo, isola os casos sem discriminar, as pessoas não transmitem a doença. Infelizmente isso não foi feito”, aponta. 

Para ele o Brasil e também o Rio Grande do Sul estão errando a testagem de uma forma violenta. “São muito pouco os testes, e feitos de forma muito seletiva. Essa é uma outra questão, só testa se está com sintoma gravíssimo, no hospital, esse tipo de teste que serve para contar caso. Não é para isso que eu quero testar, eu quero testar para identificar cedo e evitar que a pessoa passe para outros. Acho que isso até agora não foi compreendido pelos nossos gestores.”

Ainda sobre esse ponto, Hallal diz que esta é a única pauta que unifica as pessoas, tanto na lógica de saúde pública mais conservadora, como na lógica mais progressista. “Os dois grupos falam que testar em massa é relevante, importante. E estranhamente o Brasil não fez testagem em massa”, critica.

“Um conjunto de erros”

Segundo frisa o reitor, o Brasil é o maior exemplo do mundo de falta de vontade política para combater a pandemia hoje. “Um determinante da saúde coletiva, da saúde da população, é a liderança política porque, de uma forma ou de outra, a liderança política influencia a saúde da população. E nesse momento o Brasil está muito mal liderado nesse assunto”. 

Para corroborar a afirmação, faz um resgate das atitudes tomadas pelo governo Bolsonaro. “ Vamos lembrar, primeiro não era grave, era uma gripe pequena, ia morrer duas mil e poucas pessoas. Depois se chegou a falar em 20 mil. Já temos cento e poucas e mil. Depois o Brasil começou a entrar nas cortinas de fumaça. Ao invés de discutir testagem em massa ou discutir com seriedade distanciamento, ou lockdown, começou a se discutir cloroquina. Se a cloroquina resolvesse o problema da pandemia, o mundo inteiro estava usando. Não adianta ficar discutindo tratamento e deixar as pessoas se infectarem. É um conjunto de erros”.  

Ao comentar a suspensão do financiamento da pesquisa pelo Ministério da Saúde, disse que ficou sabendo pela imprensa. Reforçou que, ao contrário do que disse o Ministério em coletiva de imprensa, que pesquisa estaria regionalizada, na verdade a pesquisa cobre o país inteiro. “Foi mais um episódio constrangedor do enfrentamento da pandemia propiciado pelo Ministério da Saúde. A discussão é se nós vamos esconder dados ou não vamos esconder dados. A discussão é se vamos acreditar na ciência ou não vamos acreditar. No limite, a discussão é se a terra é plana ou não. O Ministério da Saúde podia não ter seguido com a nossa pesquisa, claro que podia. Mas que tivesse a decência de ligar ou mandar um ofício para o coordenador da pesquisa e comunicar sobre os motivos”.

Em relação ao que acontece no estado e sobre o uso da pesquisa e o modelo de distanciamento, pondera que o governo usa os dados da pesquisa, mas não de forma adequada e no total potencial. “Tem uma coisa que estamos fazendo em todas as divulgações (desde abril), e a sensação que dá é que é parte que é ignorada. Em todas as fases da pesquisa gaúcha a gente diz isso: Recomenda-se ampliar a testagem PCR e busca ativa. Eles nunca conseguiram fazer isso. Nesse item o estado não soube ou não está sabendo usar o resultado da nossa pesquisa da melhor forma possível”. 

Distanciamento é melhor alternativa

Hallal ressalta de forma veemente que o melhor a ser feito no momento, enquanto se aguarda a vacina, é o distanciamento. “A vacina vai chegar, não vai resolver totalmente o problema porque não é uma vacina perfeita, mas é uma vacina que vai diminuir, talvez, 80% do nosso sofrimento desse momento. Ela vai chegar no primeiro semestre do ano que vem, mas só que para chegar no primeiro semestre do ano que vem, temos ainda mais quatro meses. Será que vamos ficar todos esse tempo tendo mil mortes por dia e achando normal? Não dá, essa é a questão central”.

Para finalizar, Hallal diz que para achatar a curva ele faria testagem em larga escala, lockdown rigoroso de duas semanas para garantir a diminuição da circulação do vírus no estado e isolamento dos casos. “Aproveitaria essas duas semanas de lockdown para desenhar um programa de testagem efetivo. A pílula mágica é fazer bem feito o que deu certo em outros lugares”, finaliza. 

A sétima rodada do estudo no estado será feita entre o sábado (15) e a segunda-feira (17), com a aplicação de testes rápidos e entrevistas de 4.500 pessoas em nove cidades das regiões demográficas do estado, segundo classificação do IBGE: Pelotas, Porto Alegre, Canoas, Caxias do Sul, Passo Fundo, Santa Maria, Ijuí, Santa Cruz do Sul e Uruguaiana. 

Acompanhe aqui a live completa

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Edição: Marcelo Ferreira

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