Projeção indica que número de mortes superou nascimentos em março no RS

O número de casos de março indica implicações para o futuro da população do estado e que a pandemia está longe do fim

Assim que o neurocientista Miguel Nicolelis levantou a hipótese de que, pela primeira vez na história do Brasil, o número de mortes superaria o de nascimentos, em 6 de abril no Portal do jornal El País, demógrafos já sabiam o que estava acontecendo.

Se o neurocientista projetou para abril essa guinada histórica populacional no Brasil, por conta das mais de 350 mil mortes por covid-19 desde fevereiro do ano passado, a projeção de um professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), indica que, aqui no estado, os gráficos de projeção apontam que esse cruzamento chegou antes.

Tomando os dados do Portal da Transparência do Registro Civil, o demógrafo e professor do Departamento Interdisciplinar do Campus Litoral Norte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ricardo Dagnino, procura desenhar o tamanho da repercussão de agora para o futuro. Apenas no mês de março, ocorreram 15.802 mortes por todo tipo de causa, segundo o Portal Transparência do Registro Civil, no Rio Grande do Sul. Em algum dia antes da metade do terceiro mês de 2021, este número pode ter superado em 3.831 os nascidos vivos (11.971) no RS.

Quer dizer, em um ano de covid-19, as 21.864 mortes no estado fizeram um estrago em muitas famílias e estão causando também efeitos que poderão ser sentidos no longo prazo. Isso porque, o número de mortos superou em 32% os nascidos vivos em março deste ano no RS. Quer dizer, um mês antes do que Nicolelis previu para o RS e para o Brasil. Isso significa que a situação dos gaúchos pode ser ainda pior durante a pandemia.

Portal Transparência do Registro Civil faz cruzamento do número de nascimentos e óbitos no RS / Reprodução

Para o Brasil, a mesma fonte aponta destino semelhante ao do RS. Nicolelis projetou o cruzamento gráfico em junho, com as mortes superando os nascimentos. De fato, a diferença entre número de nascidos e mortos no Brasil caiu significativamente de janeiro para março deste ano. Eram 80.849 no primeiro mês do ano e passou para uma diferença de 47.939 no terceiro mês do ano, redução de 41% desde o início do ano.

Gráfico compara números de nascimento e óbitos no Brasil / Reprodução

Dagnino acha prudente levantar questões acerca dos dados para que eles possam ficar mais precisos. Segundo ele, desde que se faz acompanhamento populacional é muito provável que não tenha havido um mês em que o número de mortos tenha superado o de nascidos vivos no RS. Primeiro, é preciso mencionar que a fonte em que o Portal da Transparência do Registro Civil se baseia apresenta um gap em relação aos horários das mortes e os registros e inserções no sistema de dados. Como são dados obtidos a partir de registros cartoriais (certidões de óbito e de nascimento), entre a morte propriamente dita e a inserção dos dados, pode haver dois meses de diferença tanto no Registro Civil quanto no DataSUS.

Isso significa que a linha de mortes pode ter cruzado a linha de nascidos vivos em fevereiro ou até em janeiro passado. A divergência causada pela demora no registro pode levar gestores públicos, adverte o professor da UFRGS, a tomarem decisões com base em dados defasados.

Queda do crescimento da população começou nos anos 1950

Quando se fala em projeção de população é preciso olhar com mais distância para o passado. A queda do crescimento vegetativo da população brasileira não é um fenômeno recente. Vem lá dos anos 1950.

O consenso entre os demógrafos é que a população no Rio Grande do Sul começará a cair 15 anos antes da população brasileira. A projeção indica que o Brasil terá a primeira queda populacional em 2051. Os dados do Censo do IBGE projetados para os próximos 30 anos apontam queda de 200 mil habitantes de 2050 para 2051 (de 232.933 milhões e 232.719 milhões). “Um Litoral Norte inteiro”, diz Dagnino.

Para o Rio Grande do Sul, esta virada de longo prazo deve ocorrer daqui 16 anos. A projeção, de novo com base nos dados do IBGE, é que 2036 seja o ano da queda. Pela primeira vez em sua história, o RS registraria população em 3 mil pessoas menor do que o ano anterior (queda de 11,772 milhões para 11,769 milhões).

População formada por uma parcela com idade mais avançada, entre outros fatores comportamentais, explicariam essa antecipação histórica. “Como o Rio Grande do Sul está mais adiantado neste processo de transição, a população iria começar a cair 15 anos antes. Pode ser, por isso, que nós atingimos antes esse impacto [maior número de mortos do que de nascimentos em março]. Essa é a questão dos nascimentos”.

Taxa de fecundidade das mulheres teve virada em 2010

Ainda não é possível prever o efeito que as mortes por covid-19 exercerão sobre a economia no país nem sobre as taxas de natalidade futuras. Isso porque, as taxas de fecundidade vêm caindo há mais de 60 anos no Brasil. Desde 1950, a queda tem sido consistente.

Em 1950, cada mulher brasileira tinha, em média, 6,2 filhos, segundo dados do Censo do IBGE. Em 2010, último ano do Censo no Brasil, essa taxa foi mais de três vezes menor ao cair para 1,9 filhos. O Censo Demográfico no Brasil foi adiado em 2020 devido à covid-19. Por isso, o professor Ricardo Dagnino alerta para nova imprecisão nos dados.

Em 2010, último censo realizado no Brasil, a barreira dos dois filhos foi rompida e passou a indicar que haveria uma queda ainda mais significativa na população brasileira. Dagnino explica que cada mulher que se torna mãe é contada como dois assim que o filho nasce, uma vez que ela foi filha e gerou uma criança.

A barreira dessa constante foi rompida quando a taxa chegou a 1,9, em 2010, indicando que as mães estão deixando a maternidade para mais tarde ou tomando decisões mais cedo de nem mesmo ter filhos durante toda a vida.

Em 2010, último ano do Censo no Brasil, a taxa de fecundidade foi mais de três vezes menor ao cair para 1,9 filhos / Reprodução

Por isso, não é possível fazer projeções tão precisas ainda sobre os efeitos das mortes por covid-19. É que se trata de um processo longo, de uma tendência de comportamento. Segundo Dagnino, um dos fatores socioeconômicos correlacionado à queda histórica é o ingresso da mulher no mercado de trabalho que começou na passagem dos anos 1960 e 1970 no Brasil.

Os casamentos passaram estrategicamente para mais tarde. Casais jovens preferem estudar, viajar e deixam para mais tarde a decisão de ter filhos. Ocorre então um fenômeno que os demógrafos identificaram há um bom tempo, chamado “postergação da gravidez”.

Mas o coronavírus, a pandemia, a falta de vacinas, as políticas públicas ineficientes podem fazer com que essas projeções sejam antecipadas. O casamento e os filhos podem ficar para mais tarde ainda.

“Toda a crise, seja sanitária ou econômica, tem impacto. Há uma queda histórica nos números de nascimentos. Ultrapassamos o limiar da taxa de fecundidade entre 2000 e 2010 [de 2,0 para 1,9 filhos por mulher]. Com a pandemia, a pergunta mudou. Será que essa queda da população vai ser antecipada? Podemos imaginar que sim. É uma dúvida”, salienta ele.

Zika vírus provocou impacto na taxa de nascimentos no RS

Só se pode projetar algum comportamento de forma qualitativa (lembre-se não tivemos censo demográfico em 2020 e todos as taxas baseadas em população podem, por isso, estar corrompidas) em relação à queda populacional decorrente da pandemia.

O demógrafo Ricardo Dagnino traz dados sobre um estudo comparativo de comportamento relacionado à mais recente pandemia no Brasil. O surto de zika vírus, segundo o Ministério da Saúde, concentrou o maior número de casos entre abril de 2015 e novembro de 2016.

Os efeitos, a saber, os casos de microcefalia podem ter sido decisivos na tomada de decisão sobre gestação e casamento. De qualquer modo, a fecundidade caiu nesse período. Dagnino conta que a Taxa Bruta de Natalidade (TBN), número de nascidos vivos por 1 mil habitantes, no Rio Grande do Sul, apresentou uma queda importante entre 2010 e 2016.

É fato, segundo o demógrafo, que a TBN vem caindo também desde os anos 1960. Mas, diz ele, entre 2010 e 2016, houve uma queda ainda maior. De 1960 para cá, explica Dagnino, a TBN caiu de 44 para 20.

A mesma virada que a fecundidade da mulher experimentou em 2010 repercutiu na TBN. Essa taxa caiu para 16 nascidos vivos para cada 1 mil habitantes. Mas, depois do zika vírus, a queda foi ainda maior.

A TBN caiu 1,5 ponto entre 2015 e 2016 (de 15,9 para 14,4) no Rio Grande do Sul. Podemos imaginar que as mortes de jovens, de pais e mães e avós pela pandemia de covid-19, segundo Dagnino, poderão representar para a população nos próximas anos ou décadas.

“Está mudando a faixa etária das mortes por coronavírus. Já morrem mais jovens do que morria antes. Ouvi dois relatos de mortos entre 40 e 50 anos. São pais que estão morrendo e deixando filhos de 10 anos. O efeito psicológico do que estamos vivendo agora poderá causar muito impacto nas taxas de população. Muito maior do que podemos imaginar agora”, resume Dagnino.

Por que tantos mortos na pandemia no RS?

Para passar a falar dos óbitos, precisamos recorrer brevemente a alguns dados sobre o surto no Rio Grande do Sul de casos de covid-19, em março. Ricardo Dagnino tem alertado para falhas graves no desenho da política de Distanciamento Controlado, do governo do Estado.

Desde o ano passado, ele alerta para a ausência de uma variável fundamental no desenho do Distanciamento Controlado: a contenção da circulação de pessoas, o mesmo que dizer da circulação do coronavírus. O mesmo que dizer que não houve ainda lockdown no RS.

Até as 13h do domingo, 11/4, o RS figurava como quarto estado em número de mortos por covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde, do IBGE e das 18 Coordenadorias de Saúde do RS, que abastecem o Portal de dados oficiais da Secretaria de Saúde do Estado (SES) (consulta às 13h46 do domingo, 11/4).

RS detinha, no domingo, 11/4, a oitava maior taxa de mortalidade por 100 mil habitantes entre todos os estados do país / Reprodução

Já eram 21.864 mortes por covid-19 desde 10 de março passado quando uma senhora de 91 anos morreu em uma UTI de hospital de Porto Alegre. Neste pouco mais de um ano de pandemia, o RS só foi superado por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais em números absolutos de mortes por covid-19.

E são 15,1% e 82% mais casos, respectivamente, do que os vizinhos de Região Sul Paraná (18.993) e Santa Catarina (11.966).

O RS detinha, no domingo, 11/4, a oitava maior taxa de mortalidade por 100 mil habitantes entre todos os estados do país. São 192,2 moradores do RS mortos por 100 mil habitantes.

Essa taxa é 14,9% superior à mesma taxa registrada no Brasil (167,2). Quando comparada aos estados vizinhos, verifica-se a superioridade também em relação à taxa dos estados vizinhos de Região Sul: Paraná (166,1 mortos por 100 mil habitantes) e Santa Catarina (167,01).

O RS figura como quarto estado em número de mortos por covid-19 / Reprodução

Segundo a Secretaria de Saúde do Estado do Rio Grande do Sul, março respondeu por 7.651 mortes por covid-19, considerando os registros oficiais no estado (15.802). Quer dizer, do total de mortes no mês inteiro no RS, pouco menos da metade (48%) tiveram a covid-19 como causa.

Reportagem do portal El País mostra que o número de mortos em março foi superior ao acumulado de novembro de 2020 a fevereiro de 2021.

Nos cinco meses precedentes somados, foram registradas 6.949 mortes. Os registros apontam 702 mortes a mais em março por covid-19 do que nos cinco meses anteriores somados. No mínimo, os dados mostram que a luta contra o coronavírus está longe de terminar.

Edição: Katia Marko

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